Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007
UM DIA DE MERDA

 

DIA DE MERDA 
               Luis Fernando Veríssimo

               Acha seu dia às vezes difícil?
               
               Aeroporto Santos Dumont, 15:30. 

               Senti um pequeno mal-estar causado por uma cólica intestinal, mas nada que uma urinada ou uma barrigada não aliviasse. Mas, atrasado para chegar ao ônibus que me levaria para o Galeão, de onde partiria o vôo para Miami, resolvi segurar aspontas.

               Afinal de contas são só uns 15 minutos de busão. "Chegando
lá, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranqüilo, o
avião só sairía às 16:30". 


               Entrando no ônibus, sem sanitários. Senti a primeira contração e tomei consciência de que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que faria um parto de cócoras assim que entrasse no banheiro do aeroporto. 


               Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil falei:
               "Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto
porque preciso largar um barro."

               "Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas
botei a força de vontade para trabalhar e segurei a onda."
               O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu
desespero, uma voz disse pelo alto falante: "Senhoras e
senhores, nossa viagem entre os dois aeroportos levará em
torno de 1 hora, devido a obras na pista.

               "Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo.
Fiz um esforço hercúleo para segurar o trem merda que estava para chegar na estação ânus a qualquer momento. 
               Suava em bicas. Meu amigo percebeu e, como bom amigo que
era, aproveitou para tirar um sarro.

               O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais,
indicando que pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado.
               Tentava me distrair vendo TV, mas só conseguia pensar em um
banheiro, não com uma privada, mas com um vaso sanitário tão branco e tão limpo que alguém poderia botar seu almoço nele.


E o papel higiênico então: branco e macio, com textura e perfume e, ops, senti um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do ônibus e percebi, consternado, que havia cagado. Um cocô sólido e comprido daqueles que dão
orgulho de pai ao seu autor. Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los a apreciar na privada.

               Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal. Mas sem
dúvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo, procurando um pouco de piedade, e confessei sério: "Cara, caguei!"


               Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, 
               Aconselhou-me a relaxar, pois agora estava tudo sob controle.
               "Que se dane, me limpo no aeroporto", pensei. "Pior que isso não fico".

               Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte.
               Arregalei os olhos, segurei-me na cadeira mas não pude
evitar, e sem muita cerimônia ou anunciação, veio a segunda leva de merda. 
                Desta vez, como uma pasta morna.

               Foi merda para tudo que é lado, borrando, esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas, panturrilha, calças, meias e pés.
               E mais uma cólica anunciando mais merda, agora líqüida, das que queimam o fiofó do freguês ao sair rumo a liberdade.


               E depois um peido tipo bufa, que eu nem tentei segurar. 
               Afinal de contas, o que era um peidinho para quem já estava
               Todo cagado...
               Já o peido seguinte, foi do tipo que pesa.
               E me caguei pela quarta vez. 

               Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira
que resolveu botar modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas para cima e quando foi tirá-lo levou metade dos pêlos do rabo junto.

               Mas era tarde demais para tal artifício absorvente.
               Tinha menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna
               poderia me ajudar a limpar a sujeirada. 

               Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com
               Passos curtinhos, supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do ônibus e a levasse ao sanitário do aeroporto para que eu pudesse trocar de roupas.

               Corri ao banheiro e entrando de boxe em boxe, constatei falta de papel higiênico em todos os cinco. Olhei para cima e blasfemei:
"Agora chega, né?"

               Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar minha situação (que concluí como sendo o fundo do poço) e esperar pela minha salvação, com roupas limpinhas e cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia.

               Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o
               "check-in" e ia correndo tentar segurar o vôo. 
                Jogou por cima do boxe o cartão de embarque e uma maleta de
mão e saiu antes de qualquer protesto de minha parte. "Ele tinha despachado a mala com roupas".


               Na mala de mão só tinha um pulôver de gola "V". 

               A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus.
               Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas  seriam, de algum modo, aproveitáveis.

               Minha cueca, joguei no lixo. A camisa era história. As calças estavam deploráveis e assim como minhas meias, mudaram de cor tingidas pela merda.
               Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1a 10. Teria que improvisar.


                A invenção é mãe da necessidade, então transformei uma simples privada em uma magnífica máquina de lavar. Virei a calça do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei a parte atingida na água.

               Comecei a dar descarga até que o grosso da merda se            desprendeu. Estava pronto para embarcar. Saí do banheiro eatravessei o aeroporto em direção ao portão de embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado avesso e molhadas da cintura ao joelho (não exatamente limpas) e o pulôver gola "V", sem camisa. Mas caminhava com a dignidade de um lorde.

               Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam           esperando o "RAPAZ QUE ESTAVA NO BANHEIRO" e atravessei todo o corredor até o meu assento, ao lado do meu amigo que sorria.

               A aeromoça aproximou-se e perguntou se precisava de algo.
               Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas perfumadas para
disfarçar o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos, mas decidi não pedir: "Nada, obrigado."


               Eu só queria esquecer este dia de merda. Um dia de merda...

        


DEVANEIOS Lili às 18:34
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12 comentários:
De Márcia(clarinha) a 24 de Setembro de 2007 às 19:29
AFF!
Toda vez que leio esse texto dou risada mas fico pensativa sobre acontecer com qualquer um de nós uma situação tão esdrúxula...que horror, dia para esquecer mesmo.
semana linda,flor
beijos


De Alê Barros a 24 de Setembro de 2007 às 19:36
Lili,

Eu já conhecia esse texto mas tive que ler novamente, e não foi diferente...me matei de rir aqui na mesa do trabalho...Mto bom pra uma segundona esquisita como hj.
Beijos


De Kall a 24 de Setembro de 2007 às 21:56
Liliiiiiiiiiiiiiiiii minha florzinha qtas saudades de me esparramar aqui na sua casinha e delirar nas suas linhas sendo suspirando,pirando ou rindo muito com vc...saiba que ter vc por perto é muito bom e que voltar é por vcs amigos lindos e verdadeiros que tenho.
To com gas,alegria e pique tenha ctz..rs
Andei lendo o que perdi e uau..parabens tudo muito lindo.
Beijossssssssss florzinha e tenha uma otima semana.


De Erika a 24 de Setembro de 2007 às 21:59
hehehe... é muito engraçado isso...

beijos kirida


De Tati Tatuada a 25 de Setembro de 2007 às 00:25
E a gente ainda reclama da vida...kkkkkk
Beijo.


De Jac C. a 25 de Setembro de 2007 às 00:39
Que situação hein...rs
Eu tb já conhecia o txt. Muito bom!
E isso de arrumar a bagunça dentro da gente não tem fim, né?
Abraços e obrigada pelo carinho da presença.


De Luma a 25 de Setembro de 2007 às 16:39
Lili, tinha lido esse texto antes e não novamente. Sacumé, acabei de almoçar! Beijus


De Girassol a 25 de Setembro de 2007 às 18:12
Inevitável não rir com os dias de merda dos outros... =)

Boa terça para ti.. (nem preciso dizer o que pensei a seguir, né?).. rsrsrs


De Mutumutum a 25 de Setembro de 2007 às 19:32
O que te conto, é que já conhecia esse texto e ri mto ao lê-lo de novo. Seria capaz de rir da situação do pobre coitado tantas vezes quantas ler esse texto o/ Dia de merda é isso aí :)

Abraços o/


De Cin a 25 de Setembro de 2007 às 20:59
rs Esse texto ´show!

Bjos e linda semana!


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